quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Quando assito à novela O clone, dá-me uma vontade de casar...


 
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva. 

Adélia Prado

domingo, 2 de janeiro de 2011

O primeiro dia que termina...



Com uma chuva malemolente terminamos o dia, aquele que poderíamos chamar de estréia de um novo show, de um novo cargo, de uma nova vida. São 23:33 de uma noite meio fria por causa da chuva que para muitos é uma sonata para o descanso do primeiro dia de trabalho e o que nos espera os outros novos 364 dias do ano. Mais um ano, mais uma expectativa, mais um futuro a se planejar, mais um...
Hoje foi um dia especial assim como todos os primeiros dias dos anos que começam, e ainda mais especial porque a primeira mulher toma posse como Presidenta do nosso amado país.
Senti-me emocionada durante a posse e as palavras de Dilma. Emoções à parte, sei que teremos mais 364 dias para aplaudirmos ou decepcionarmos com o seus novos dias de inauguração, pois a cada manhã nos inauguramos para o novo, recomeçamos cada dia como se fosse o único de nossas vidas. Sem exageros. O vinho, as novidades, a chuva, o reinaugurar-se, deixa-nos emotivos, sensíveis com as palavras e com vontade de tomarmos mais um cálice de vinho.


Enquanto tomava meu banho de final de noite, pensava comigo que a mulher de poder é um ser solitário. Embora Dilma estivesse acompanhada por sua filha, Michel Temer era ladeado e guardado por sua esposa. E assim como Lula, dona Marisa o protegia e protegeu durante todos os oito anos de mandato.


Dilma não. É exceção, já que mulheres no poder são exceções. Em países machistas como o nosso em que metade ou mais dos homens não admitem mulheres no poder, saudemos a exceção e comemoremos a sagacidade da maioria, que é mulher no Brasil,que deixou seu lado patriarcal e o jugo com que foram criadas e acreditaram que ela seria capaz de governar este país.


Eu parabenizo a mim e ao povo brasileiro que começa a mostrar que está mudando. Mas precisamos de mais mudanças - uma básica, que é a de culpar o governo de tudo o que nos acontece. Sei que hoje é um dia diferente de todos que eu já inaugurei na minha vida. Não sinto a empolgação fraca da mudança, mas a consistência das palavras e de uma nova gestão no ar.


Voltando ao poder e a solidão que ele nos remete, sinto que Dilma sofrerá muito mais do que Lula, muito mais do que qualquer estadista que governou o mundo e este país, porque será mais cobrada de suas ações e, sobretudo, porque é mulher!


Uma mulher que com passos curtos subiu e desceu a rampa do Planalto sozinha. Havia um quê de desamparo... Atrás da fortaleza daquela mulher há uma outra que sonha com os carinhos do amante e também de chegar em casa e brincar de fazer castelos de cartas com seus netos. Há o aconchego inerente à raça, os braços que aninham e amamentam, a mulher que cozinha e faz bolinhos de chuva para a criançada da casa e os amigos que vêm junto!


Em um de suas palavras ela salientou que em seu mandato haveria a força, mas também o carinho da mulher que acalenta, da mãe, daquela que alimentou seus filhos. É nisso que reside sua força - a mão que balança o berço, é a mão que governa o mundo! E disso ela sabe muito bem.


Infelizmente Dilma não terá muito dessas coisas, pois é uma mulher de poder, temida pelos homens, mal entendida pela maioria das outras mulheres...


Cabe, agora, a nós a ajudarmos, fazendo a nossa parte de cidadãos, investindo em nossos filhos, em nossas gerações futuras, em nossos alunos...
Cabe a cada um brasileiro dar um pouco de seu ombro, pois ela precisará de muitos para chorar e descansar seus fracassos e vangloriar suas vitórias!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Duas pessoas especiais - Sheila Vira-lata e Ronald Claver


Ando meio-sem-ter-o-que-dizer, estou compondo com os dedos, fazendo artesanato. Enveredei-me por outras arte e comecei a ganhar dinheiro com ela - o que é muito bom! Mas também faço por amor ao artesanato, acho que componho melhor com as linhas, as fitas, as contas, os laços e crochet. Por isso resolvi colher palavras-flores por aí para encerrar esse 2010, que foi meio duro, desassossegado... Esperemos, então, o 2011, acreditando que tudo possa ser passado a limpo com mais amor da Sheila  e rejuvenescimento do Ronald! 

Voilá 2011!

Eu te amo

Estou cá tentando escrever a última postagem de 2010, mas a inspiração insiste em fugir de mim. Tentei até me apoiar em Vinícius de Morais (esta noite, sonhei que ele estava sentado à minha direita numa mesa de bar) ou Jesus Cristo (amai-vos uns aos outros), em vão. Queria dizer que na era da internet, em que o tempo voa veloz, os amores seguem o mesmo ritmo. Não apenas entre amantes, mas entre amigos, colaboradores, parceiros, todos, enfim. O mundo está carente de amor porque as pessoas não sabem ou desaprenderam a amar. No mundo virtual e no real, tudo é passageiro, a fila corre, superágil, enquanto os sentimentos, ressequidos, exalam artrite e naftalina. Gostaria de acreditar quando me dizem eu te amo, mas estas três palavras foram tão banalizadas que ficou fácil de pronunciá-las. Antes, pensava-se mais antes de dizer. Hoje, dizem sem pensar. Falam sem amar. Desejo que em 2011 as pessoas, crianças, jovens e idosos reaprendam o significado dessas palavras. Que o ser humano ame mais, independente de semelhanças, mas com o coração e mente lúcidos, conscientes do real significado do amor. Parece brincadeira, mas não é: só o amor salva.



Poeminha para o fim de ano - Rito de Passagem


A CAMA desarrumada é um mar revolto
A GAVETA semiaberta com cuecas, meias, toalhas despencando
é uma festa no convés de um navio pirata
A NESGA da janela é um postal da Bahia
O SONHO na mesa do bar é um mar na esquina
NA PAREDE da morada nova duas janelas se abrem
uma para dentro, outra para fora
É O VELHO/novo amor se rejuvenescendo e pedindo
passagem.


Ronald Claver