domingo, 4 de abril de 2010

O Primeiro Beijo




             Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.
            - Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada. Fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar?
Ele foi simples:
- Sim, já beijei antes uma mulher.
- Quem era ela? Perguntou com dor.
Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.
O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos nomeio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os  de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.
E mesmo com sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! Como deixava a garganta seca.
E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engoli-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.
A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio-dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.
E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento do deserto? Tentou por instantes, mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, talvez horas, enquanto sua sede era de anos.
Não sabia como e por que, mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.
O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos, estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada.
O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.
De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga.
Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.
Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era  a estátua de uma mulher e era da boca de mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.
E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de ume boca par a outra.
Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o liquido germinador da vida... Olhou a estátua nua.
Ele a havia beijado.
Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva.
Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.
Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.
Até, que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...
Ele se tornara homem.



Clarice Lispector, Felicidade Clandestina.
           

quarta-feira, 31 de março de 2010


PP- Caio ao centro e Pedro, meu filho!

O céu anda cinza, os ares frios por aqui. No quarto escuro, acalento meus sonhos em meio a luz azul do computador. Se ao menos Clarice tivesse um PC, suas palavras aí sairiam como enxurradas, não como fluxos de pensamento. 
Mas meu pensamento anda vazio, feito olhar a amplidão ou ficar estático entre as folhagens de uma clareira.
Quero encher meus sentimentos tridimensionais vagos de esferas e propagar minhas palavras pelo espaço em fim.
O agora é uma tarde de nada! Cheia de silêncios. Se ao menos eu tivesse aquele sentimento que faz as cordas do relógio da vida andar?!...
Não tenho.
Tudo são apenas ensaios, esboços mal feitos de um retrato.
O que eu acalentava, voou, anda pelas livrarias, bibliotecas, nos espaços de conhecimentos da matéria e da vida!
Não mais me pertence!
Sinto saudades de tudo quando era pequeno.
Eu ia ali na pracinha e voltava feliz. Meu filho sorria de longe e acenava a mãozinha pequena e o sorriso ia frouxo pelo vento.
Os cabelos encaracolados, negros, os olhos grandes de jabuticaba cresceram.
E eu estou aqui em mais um Outono procurando escrever mundos de faz-de-conta.
Levanto, acendo a luz porque não sei mais ficar na escuridão, as sombras me trazem o medo daquele buraco infinito dentro do peito que algumas vezes eu sinto. E temo! Vou até a cozinha, olho a paisagem escura da tarde, pego mais um café. Falta-me o cigarro e o café  das conversas com as amigas Ciça e Berê. 
É engraçado como as pessoas que antes estavam já não mais sobrevoam nossas vidas.
Meu primo Marcelo!
Meus avós....
Eu brinco de enfeitar meus dias com gente de aço, plástico e luz. Se ao mesnos tivessem luz eu não estaria tão no escuro!
...e a tarde termina mais escura ainda, com ares temerosos. Não sei por que razão? Não gosto de tardes assim! Dói o coração, a alma, sinto-me num eterno vazio, tão imensurável que não existo!
Se é a Saudade? Não sei dizer. Mas a falta me dá vontade de nada mais escrever!

  

sábado, 27 de março de 2010

Revoada de Pardais



















Nem imagino onde eles estão agora
Era mais fácil quando vestiam o pijama
E pedia a história do elefante azul
Parece que restou um cheirinho de talco na almofada do quarto
Deve ser só impressão
Nesse tempo, eu não tinha medo da noite
Ela era o telhado dos poetas
As sombras eram apenas  a franja mal-aparada dos anjos
A trava na porta me bastava
Hoje, as camas vazias me assustam
Elas acusam o passar das horas
E denunciam a revoadas dos pardais
Os meus pardais
Já não posso abrir minhas asas sobre eles
São pequenas demais para cobri-los
Frágeis demais para defendê-los
Ainda bem que me resta a prece
Minha aliada nos dias de nuvens e nas madrugadas  sem fim
Peço perdão pela insistência
Mas reza de mãe é assim mesmo
Pura perseverança
Que Deus abençoe minhas crianças
De barba na cara e calçado 42
O resto da vida é secundário
E fica pra depois
Que as ilumine com seu sorriso
E se preciso acione seu séquito de estrelas
Se tiver que usá-las
Prometo devolvê-las
E quando o cansaço me quiser já recolhida
Hei de poder sorrir pela missão cumprida.

Flora Figueiredo

Dizem que ando alegre demais...

????

Não seremos marido e mulher
Nem mesmo amantes
Que tal apenas namorados intermitentes
Docemente nos  amando itinerantes
Trocaremos afagos
Quando o dia amanhecer na encruzilhada
Deixarei em você meus cheiros de mulher
Lançaremos olhares disfarçados
Que certamente passarão despercebidos
Pois namorados são de deuses os protegidos
Quando nossas mãos orçarem-se furtivas
Vão insinuar desejos abafados
Pelas regras da vida censurados
Mas que são flores no canteiro
Sempre-vivas!
Ao nos encontrarmos pela tarde rua acima
Lá, onde a mangueira domina a rotatória
Assinarei um verso sublimado
A grafitar nossa parede divisória...
Flora Figueiredo

sexta-feira, 26 de março de 2010

Gostei e copiei! Também vi o Arco-íris quando voltava de Tapiratiba para Guaxupé!


"Além do arco-íris
pode ser
que alguém
veja em meus olhos
o que eu não posso ver"