sábado, 3 de novembro de 2007

PARE e observe...

Há 43 anos observo essas janelas.
Olho para o alto imaginando a dor que sentem as estátuas que seguram o telhado.
Ficaram aí paradas no tempo. Absortas.
E, absorta, eu sempre subi essa rua, desde que moro aí.
Sempre carreguei dentro de mim uma mulher antiga, resignada a tudo que vi passar.
Hoje, escrevo meus poemas, colo-os, modifico suas linhas.
Recorto palavras repetidas...todas com o auxílio do computador. Ironia.
Aquela mulherzinha, meio índia de 4 anos, estampada acima, revelando minha quase personalidade, sempre foi meio velhinha. Gostava (e ainda gosta) de jazz & blues dos tempos de minha avô menina... e sempre carregando os olhos firmes, profundos, de recolher na alma todas as infelicidades do mundo e seus questionamentos.
Frequentemente viajo no tempo e encontro uma criança que observava entristecida, circunspecta o que o mundo lhe ditava. Nos meus pequenos passos, subindo a rua,
descobria a alma das casas, das janelas, das nuvens...

Vanilla Sky...esta Adélia parece que lê meus pensamentos...


Uma vez, quando eu era menina,
choveu grosso, com trovoada e clarões,
exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.

Nesta rua, nesta rua mora um anjo...



Belezas da minha rua...

Minha rua toda é um só poema,
Feito de luz e sentimentos.
Quando era criança,
Brincava de fazer buraco de tatu pra chegar lá no Japão.
Cresci.
E o Japão apenas povoa meus traços,
Orientais de mulher índia brasileira,
Nativa, de raça.
Na minha rua teve gente rica,
Tem pobre que veio morar nas casas herdadas.
Herança maldita de anos que não as vieram reconstruir.
Passou o tempo.
Hoje me vejo uma mulher de quase-meia-idade,
Faceira, sorrisos,
Lágrimas de subir a minha rua eterna
E não poder mais ver meu filho pequeno jogar bola nas vidraças do vizinho.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

A primavera e o entardecer...




Photoshop rapidim.... rs!


DOLORES

Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
"Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência..."
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos...
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã. Uma tal esperança imploro a Deus.
Adélia, Adélia, sempre Adélia...