terça-feira, 24 de junho de 2008

Pula a fogueira Ioiô.... pula a fogueira Iaiá... Cuidado para não se queimar!











Profundamente
Manuel Bandeira

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncioComo um túnel.

Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Texto extraído do livro "Antologia Poética - Manuel Bandeira", Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2001, pág. 81







domingo, 22 de junho de 2008

O tempo não pára, não pára, não.... Não pára!

Saí pra caminhar mais uma vez. O domingo está terminando. Eu gosto de caminhar quando algo me deixa sem esperança ou de alguma maneira me tira o conforto. Sempre que retorno delas, estou mais feliz do que as havia começado.
Hoje, fui novamente àquele pé de Alecrim que tem no jardim do bairro Nova Floresta. Gosto de caminhar naquela avenida e sentir o cheirinho do vento quando bate em sua floração . Recordo da minha infância, de quando minha avó fazia quitandas e varria o forno de barro com vassouras desse Alecrim do Campo. Ele me faz pensar na poesia de Adélia Prado que diz assim:


“Nasceu no meu jardim um pé de mato
que dá flor amarela.
Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira
da insetaria na festa.
Tem zoada de todo jeito:
tem do grosso, do fino, de aprendiz e de mestre.
É pata, é asas, é boca, é bico, é grão de
poeira e pólen na fogueira do sol.
Parece que a arvorinha conversa.”
ANÍMICO, de Adélia Prado
....e me recordo também das pessoas que passaram e passam pela minha vida que têm certa “parecença” com esse pé de mato tão encantador, tão suave. As suas florinhas não são amarelas, são brancas e têm um forte perfume de mel. Faz tempo que passo por ele, uns 4 anos ou mais. Era pequenino, confundia-se com os outros matos do caminho... Hoje está um pouco maior do que eu, com sua “ensetaria na festa”, derrubando poeira e grãos de pólen, bêbedas de aroma e de mel.
Esse Alecrim mexe comigo, como a saudade... “O que me dói não é /O que há no coração / Mas essas coisas lindas / Que nunca existirão... (versos de Fernando Pessoa) aquilo que poderia ter sido e que não foi por inocência, imaturidade, por falta de aprendizado. Quando jovens, não percebemos o tempo e as pessoas; envelhecidos, perdemos esse tempo, ele não volta. Somos tudo aquilo que éramos, mas o tempo é um vilão, tira-nos a vida do que poderia ser para sempre. Então, desanimados, fechamos o livro, observamos a paisagem e sonhamos com outras vidas, com atos mais instantâneos, menos conservadores. Não estou me sentindo velha, só lamentando as pessoas que passaram pela minha vida e não ficaram como eu gostaria que ficassem. Que não fossem embora!
... mas elas se vão, como eu deixei a vida de muitas. Seria bom se pudéssemos guardá-las em nossa caixa de recortes e quinquilharias de lembranças para sempre. Mas para sempre é também um tempo muito longo, e às vezes me pergunto ‘por que as pessoas ficam? ‘O que faz com que elas fiquem?’ Talvez as tenham mandado embora através das mensagens do meu mundo incomunicável, secreto, privado. Eu gostaria que tivessem ficado como a paisagem que vejo todas as tardes quando caminho – o céu e suas nuances multicores, o Sol descendo atrás das montanhas , a Lua, as estrelas e meu pé de Alecrim cheiroso....
Às vezes tenho a impressão que essas pessoas que se foram, quando fica ruim do lado de lá, lembram-se do lado de cá e vêm beber a água limpa da minha fonte que os tempos modernos não poluíram. Eu tenho um outro amigo que sempre me liga ou vem aqui na minha cidade só pra me ver e conversar, pois diz que eu pareço uma fazenda, cheia de flores e capins cheirosos, cheia de vida e de lugares próximos da saudade. Eu gosto dessa definição, não existe coisa mais romântica pra se descrever alguém. E quando fica ruim do lado de lá, como ele diz, ele foge pro lado de cá pra relembrar que a vida é bonita e colorida como só os meus olhos sabem ver...

domingo, 15 de junho de 2008

Sobrenomes e pessoas....rs!

"Que é Montecchio?
Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo.
Sê outro nome.
Que há num simples nome?
O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume.
Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título.
Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteira."
(Julieta, Ato II, Cena II)

Sabem o João? o João, genteeeeeee?! O Prudente! O Pires! O companheiro da Xícara!!!! Aquele que me enviou a foto e este lindo poema aí...

A foto aí é do João, o Prudente!
São Luiz do Paraitinga, Vale do Paraíba.
And.... tenha a certeza que não deixarei que o riacho fuja e leve nossos sonhos,
nossos rostos infantis, nossas nuvens e pedras...
O Riacho
Me pergunto se este é o riacho
Que nos viu brincar na infância
Se esses rostos
Que ainda sorriem de seu leito de pedras,
São as crianças que éramos então.
Se esta água fresca e agradável
Que hoje se junta e escorre entre meus dedos,
A que nos refrescou os pés descalços,
E nos colocou a roupa no corpo.

Me pergunto se essa pedra lisa,
Que ainda pula e pula e pula,
Sobre as tranqüilas águas do riacho,
Ainda procura respostas
Para nossas charadas infantis.
Se esses gigantes brancos feitos de nuvens
São aqueles aos quais tentávamos dar nomes
Quando deitados na grama alta
Não sabíamos o que fazer com nossos corpos.

Te proponho regressar ao nosso riacho,
Ali depositar as lágrimas
De nossos adultos transcursos,
Talvez acertar aquela charada,
E nos encher de todas as respostas.
Mas, seja apressado, amor
Não deixe que o riacho fuja
Para o mar, longe de nós,
Levando consigo
Nossos rostos infantis,
Nossas nuvens e pedras,
Nossos sonhos,
Nossos pequenos corpos incapazes.

(Carlos Verdecia Poeta e Jonalista Cubano)

Nossa! fui eu quem escrevi este poema???

Outono

Os primeiros pontos da estação
Vêm tristemente com o vento que bate janela a dentro
Céu cinzento
Cor de alma que foi sem querer
Cor de amor mal curado
Cor de vida sem viver...

Bastam as cores das saudades que vêm
E vêm soltas na amplidão do caminho sem volta
Sem vida, seco de tanto não ser...

Minha alma está encerrada em si...
Num canto Doloris Matter Chirstus
E cerram as cortinas de cor púrpura
Lacrando toda vida que sucumbe ao desamor

Desamor de alguém
Desamor de tudo que me cerca.